quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Porque ainda não batemos no fundo?

Esta crise veio por um ponto final na sociedade de consumo (desenfreado) baseada no crédito fácil. Isso acabou! A desalavancagem financeira está aí e nenhum governo conseguirá travar-la: aqueles que tentarem fazer-lo serão pura e simplesmente esmagados. Aquilo que a FED e o Tesouro Americano fizeram foi tentar obter algum equilíbrio entre a oferta e a procura e, assim, evitar o colapso dos mercados de dívida imobiliária e uma gravíssima depressão. Para atingir esse objectivo compraram, até à data, sensivelmente 1 trilião de dólares em MBS (Mortgage Backed Securities)...

Resumidamente, aquilo que fizeram foi necessário para evitar uma 2ª Grande Depressão mas representou apenas mais uma fuga para a frente. O problema é que não se pode fugir indefinidamente para a frente porque, a dado momento, ou aparece uma parede blindada ou se forma um bola de neve tão grande que perdemos totalmente o controlo da situação. Por isso, é imperativo parar e inverter o sentido da marcha. E estamos muito próximos desse ponto...

E o que representa essa parede e essa bola de neve de que falo? A parede são os credores dos EUA e a bola de neve é o défice de conta corrente Americano que se cifra actualmente em 1,58 triliões de dólares para um orçamento de 3.65 triliões de dólares e um PIB de 14.3 triliões de dólares. Em termos percentuais, esse défice representa 43% do orçamento e 11% do PIB. Actualmente, para conseguirem fugir para a frente, os EUA estão a aumentar a sua actual dívida de 11.1 triliões em 8% do PIB ao ano, ou seja, todos os anos. Isso representará uma dívida de 12 triliões em 2010, 13 triliões em 2011, 14 triliões em 2012, 15.1 triliões em 2013, 16.3 triliões em 2014 e 17.6 triliões em 2015. Mas o PIB não crescerá a esse ritmo e não será certamente maior do que 15.8 triliões em 2015 (assumindo um crescimento de 2%/ano que poderá não se concretizar). Ou seja, a continuar assim, os EUA passarão de uma actual dívida de 77.6% do PIB para uma dívida de 114% do PIB em 2015 e muito provavelmente a um ponto de não retorno (pensem no Japão)...

Foi em parte - as sucessivas guerras também contribuíram para este défice - por causa dessa fuga para a frente que as finanças Americanas chegaram a este ponto. O problema é que, quanto mais tarde se tentar inverter este rumo, mais difícil será fazê-lo. Para piorar a situação, a FED iniciou no ano passado uma série de medidas que terão, a longo prazo, consequências inflacionistas. No médio prazo isso não acontecerá porque existem forças deflacionistas (desalavancagem, recessão, credit crunch,...) que equilibram as coisas. Ora, essa inflação reflectir-se-á num aumento das taxas de juro e, consequentemente, num aumento do défice de conta corrente. A fuga para a frente é por isso uma bola de neve que, se não forem tomadas medidas com carácter de urgência, será impossível deter.

Cumprimentos,

Dax Speculator