terça-feira, 11 de novembro de 2008

A BUFFETTOLOGIA (PARTE II)

Quando tudo o que é notícia fala de crise, recessão, desemprego, falências... o investidor tem de estar atento às oportunidades que podem existir no mercado.

Este tipo de oportunidades existiram em finais do mês de Outubro, altura em que o mais carismático e bem sucedido investidor do mundo Warren Buffett disse numa entrevista ao New York Times:

"O mundo está um caos financeiro, tanto nos Estados Unidos como no exterior. O problemas do sector financeiro, aliás, foram-se propagando para a economia real, e as fugas transformam-se agora num violento jacto. A curto prazo, o desemprego irá aumentar, a actividade empresarial irá esmorecer e as manchetes vão continuar a ser assustadoras."

"Então ... tenho comprado acções Americanas. Esta é a minha conta pessoal, de que estou a falar, na qual anteriormente detinha apenas obrigações do Tesouro dos Estados Unidos. (esta descrição deixa de lado as minhas acções da Berkshire Hathaway...). Se os preços continuarem tão atractivos, o património líquido desta minha conta será em breve totalmente constituída por acções Americanas."

E porque compra Warren Buffett? Porque Warren Buffett está focado no longo prazo. Na minha 1º mensagem sobre a estratégia de Warren Buffett (ver "A BUFFETTOLOGIA (PARTE I)", falei sobre o investimento na perspectiva do negócio e as suas linhas orientadoras:

  1. Esperar que o mercado desvalorize em vez de rezar para que suba, de modo a poder comprar partes significativas de empresas cotadas de que estava à espera de ser accionista;
  2. Ter o pensamento orientado à análise do negócio e perceber que a razão mais estúpida para ter uma acção é acreditar que esta vai subir na próxima semana;
  3. Deixar de comprar uma acção na esperança de uma valorização de 25% em 6 meses para investir num negócio que estima lhe dará 1 taxa de rentabilidade anual de 15% ou mais nos próximos 5 ou 10 anos;
  4. Aprender que a diversificação serve apenas para as pessoas se protegerem da sua própria estupidez;
  5. Ter grandes ideias de investimento quando fizer compras no supermercado;
  6. Descobrir que a "Pipi das Meias Altas" e o seu corretor podem ser bastante optimistas mas nenhum deles tem muitos conhecimentos de finanças;
  7. Perceber porque uma acção cotada a 100€ pode estar barata e que uma outra a 10€ pode estar brutalmente cara;
  8. Finalmente, começar a pensar em acções como se fossem obrigações com uma taxa de juro variável.
Ora, é a essas regras que Warren obedece diariamente. E começou a acumular acções para a sua conta pessoal em Outubro tendo em conta principalmente a orientação n.º 3. Ele estima obter uma rentabilidade anual superior a 15%, ano após ano. E como estima ele essa rentabilidade? Isso será tema para outra dia mas a regra básica é muito simples: quanto menor o preço de aquisição, maior será a rentabilidade anual estimada.

E que empresas interessam a Warren? Basicamente são estas as características que Warren procura:

  1. É Monopólio de clientes (*)?
  2. Os resultados apresentam uma tendência ascendente (últimos 10 anos)?
  3. O financiamento é conservador (Long Term Debt to Equity ou Total Debt to Equity, ou seja a dívida de longo prazo ou a dívida total divida pela Capital Próprio)
  4. Os ROE (Retorno Sobre Capitais Próprios) dos últimos anos são bons e consistentes (ROE 5y >= 15)?
  5. Retém os lucros (**)?
  6. Tem baixas despesas de operações correntes?


Concluindo, Warren borrifa-se completamente para o curto prazo (onde é que já li isto? ;-) e, melhor ainda, até tira vantagem daí quando a irracionalidade da maior parte dos intervenientes os obriga a vender ao desbarato tanto boas como más empresas para satisfazer necessidades de capital. Tal irracionalidade aconteceu em Outubro, altura em que tivemos boas empresas a serem cotadas a preços de pré-aumentos de capital que, por enquanto, não se vieram a verificar.

(*) - Um Monopólio de clientes é uma empresa que controla o mercado, que tem uma larga maioria desse mercado. Exemplos de Monopólio de clientes são a Coca-Cola, Mc Donalds, Google, Microsoft, Cisco, bancos, empresas de segurança, ...

(**) - Warren prefere não receber dividendos porque estes são tributados a uma taxa muito superior do que os lucros da própria empresa. Warren prefere que a empresa utilize esse dinheiro sempre que o valor acrescentado pelos resultados retidos aumente o valor da empresa.

Bons investimentos,

Dax Speculator